<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-129365409517387313</id><updated>2012-01-24T05:49:45.830-08:00</updated><title type='text'>edições do galo</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://edicoesgalo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/129365409517387313/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://edicoesgalo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>galo porno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16476534964653207702</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://3.bp.blogspot.com/-jaOrVAybQ9g/TsuGCNiBJDI/AAAAAAAAAeI/MYlrDSCxE_s/s220/g.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>2</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-129365409517387313.post-72344947720271240</id><published>2012-01-24T05:49:00.001-08:00</published><updated>2012-01-24T05:49:45.837-08:00</updated><title type='text'>semana de parágrafos II</title><content type='html'>.&lt;br /&gt;_______ quando não conseguimos escrever coisas&lt;br /&gt;de valor escrevemos sobre coisas de valor, quando&lt;br /&gt;não conseguimos fazer coisas de valor falamos sobre&lt;br /&gt;coisas de valor. e a teoria se aprofunda, e o gosto se&lt;br /&gt;refina; mas a capacidade mirra como pinheiro cortado&lt;br /&gt;na transversal com um vaso atado que receba resina.&lt;br /&gt;também a processionária se alimenta da seiva e também&lt;br /&gt;tal lagarta vive num palácio de nuvens; mas a árvore se&lt;br /&gt;seca castanha e a árvore se quebra seca. quando não&lt;br /&gt;consegues fazer coisas de valor falas das coisas de valor&lt;br /&gt;como se um entendido fosses; como não consegues escrever&lt;br /&gt;coisas de valor escreves de coisas de valor como se o Deus&lt;br /&gt;fosses; e quanto digas faz sentido no teu mundo, e quanto&lt;br /&gt;pensas tem sentido no teu mundo; mas o mundo não é&lt;br /&gt;apenas o teu e muitos homens fazem um só convencido&lt;br /&gt;de si mesmo até que as gerações o curvem consoante os&lt;br /&gt;ventos do espírito que soprem&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ com o tempo tudo vem, com&lt;br /&gt;o tempo tudo vai porque pelo tempo sai e&lt;br /&gt;entra. e as pessoas não são sua idade, e as&lt;br /&gt;pessoas são suas qualidades. nunca te sentiste&lt;br /&gt;velho; nunca te sentiste novo? e no entanto tua&lt;br /&gt;idade te não acompanhou. por ela julgas os demais,&lt;br /&gt;por ela os demais te julgam; e cada um é o tempo&lt;br /&gt;que diz ter vivido. como se fazem homens nossos&lt;br /&gt;filhos, como mulheres filhas nossas? e aquele que&lt;br /&gt;hoje nos esmaga o tivemos ao colo suspenso na&lt;br /&gt;palma da mão&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ ouve a música ingénua, lê a história&lt;br /&gt;ingénua, nutre-te com o ingénuo –o que nos&lt;br /&gt;alimenta não é ingénuo, e o que o mundo acha de&lt;br /&gt;óptimo muitas vezes em nada nos pode satisfazer.&lt;br /&gt;o corpo precisa de vitaminas e sais minerais, mas o&lt;br /&gt;homem precisa de comer; e a comida se transforma&lt;br /&gt;em culinária, e a química um dicionário sem sabor.&lt;br /&gt;quantas vezes não tiveste prazer ouvindo aquela&lt;br /&gt;melodia simplória mas cheia de glória porque&lt;br /&gt;transbordante dos sentimentos que lhe passaste;&lt;br /&gt;quantas vezes não ficaste regalado com a canção&lt;br /&gt;que em tempos verdes te deu o gosto pela clorofila?&lt;br /&gt;e as plantas são banais mas não te esqueças que são&lt;br /&gt;também sobrenaturais –tu não conseguirias extrair da&lt;br /&gt;terra um figo e jamais da lama uma flor de amendoeira;&lt;br /&gt;antes, celebras varejando a oliveira cheira de brincos e&lt;br /&gt;às videiras nunca faltas com o brinde místico&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ já paraste para pensar no que&lt;br /&gt;aquilo queria dizer em vez de procurar sempre&lt;br /&gt;o prazer de ouvir e o prazer de sentir algo doce&lt;br /&gt;escorrer pela garganta depois de inundar a língua&lt;br /&gt;pegajosamente? talvez as coisas tenham um&lt;br /&gt;significado ao final de tudo que ultrapassa o&lt;br /&gt;das papilas, e talvez o sentido pise sempre o&lt;br /&gt;degustador encantado em decantar o sabor até&lt;br /&gt;ao extremo. o açúcar puro é doce, mas o bolo é&lt;br /&gt;de uma doçura diferente, profunda e concreta&lt;br /&gt;como o cimento que com água da alma constrói&lt;br /&gt;o ser; as pedras são duras, mas a catedral perdura&lt;br /&gt;mais que o tempo que a ergueu e o ritual enriquece&lt;br /&gt;sobremaneira o coração&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ como uma partitura as&lt;br /&gt;palavras aguardam a interpretação; e&lt;br /&gt;podem restar adormecidas anos, e podem&lt;br /&gt;chegar a desaparecer sem se fazerem ouvir,&lt;br /&gt;mas uma vez sentidas na mente de quem&lt;br /&gt;as registou na pauta alegraram a alma e&lt;br /&gt;tornaram o coração um pouco mais rico&lt;br /&gt;–e um coração mais rico oferece um ser&lt;br /&gt;melhor. como uma partitura as escritas&lt;br /&gt;aguardam as interpretações; e basta&lt;br /&gt;discorrerem uma vez dentro do mundo&lt;br /&gt;que lhes abriu a fonte donde brotaram&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ já tudo foi feito mas nós pouco&lt;br /&gt;ainda ouvimos e talvez mesmo nada até que&lt;br /&gt;finalmente o digamos aos poucos por nós próprios.&lt;br /&gt;e o mundo é uma abundância redundante porque&lt;br /&gt;se serve a si mesmo sem algo podermos aceitar,&lt;br /&gt;e no fundo somos redundantes porque o mundo&lt;br /&gt;estamos sempre a multiplicar vezes sem fim pois&lt;br /&gt;necessitamos de recriá-lo para o aceitarmos como&lt;br /&gt;criado. e o que os outros dizem não entra em nós,&lt;br /&gt;e o que aos outros dizemos não entra neles; e&lt;br /&gt;repetimos e repetimos e voltamos a repetir como&lt;br /&gt;uma criança incapaz de decorar porque incapaz&lt;br /&gt;de entender o que a canção que irá cantar diz&lt;br /&gt;encantadoramente&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ vive dos produtos do teu sonho,&lt;br /&gt;cultiva as sementes próprias e trata de compor.&lt;br /&gt;uns são jardins, outros hortas, outros florestas;&lt;br /&gt;há quem se converta em deserto e quem se deixe&lt;br /&gt;transformar em silvas por uma ou duas amoras.&lt;br /&gt;o terreno bem cuidado sossega o espírito e anima&lt;br /&gt;o coração, e o solo aproveitado satisfaz por uma&lt;br /&gt;geração inteira. mas também a humanidade se&lt;br /&gt;esgota no húmus e a animalidade parece prevalecer&lt;br /&gt;por momentos em alguns; pelo que há que fazer&lt;br /&gt;rodar os cultivos em quem gosta dos vegetais que&lt;br /&gt;comer enquanto quem prefere crescer como árvore&lt;br /&gt;se deixa ir conquistando espaço à luz e raiz do chão&lt;br /&gt;e do céu&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ gostas de ter as esculturas nas&lt;br /&gt;mãos; eu prefiro ter mãos escultoras. e o&lt;br /&gt;meu ser é vazio, e a minha casa habitável;&lt;br /&gt;mas quando decido trabalhar rapidamente&lt;br /&gt;expulso o ar do interior restando apenas as&lt;br /&gt;janelas por onde sair. tua é decorada e uma&lt;br /&gt;vez arejada nunca se lhe mexerá; acabas por&lt;br /&gt;te tornar em escultura também e ficas a um&lt;br /&gt;canto como mais uma. toma esta outra tu,&lt;br /&gt;toma tu outro outra, ficai com todas; porque&lt;br /&gt;prefiro ter mãos livres para trabalhar nas minhas&lt;br /&gt;criações a ser criado seu numa casa onde não&lt;br /&gt;há lugar para dedos pesados&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #1 o que são meus filhos&lt;br /&gt;para mim; que minha esposa; que&lt;br /&gt;minha família, casa, lar? palavras&lt;br /&gt;vêm palavras vão mas sempre algo&lt;br /&gt;delas parece ficar para sempre quando&lt;br /&gt;resistem num papel enquanto os actos&lt;br /&gt;se cimentam uns sobre os outros fazendo-se&lt;br /&gt;o chão que sustenta toda a canção acabando&lt;br /&gt;olvidado quanto à espessura silenciosa.&lt;br /&gt;uma palavra pois agora para celebrar&lt;br /&gt;o chão de agora porque amanhã outra&lt;br /&gt;camada virá ver viver os mesmos seres&lt;br /&gt;um pouco diferentes e por isso outros&lt;br /&gt;completamente diferentes&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #2 eva é a vitalidade;&lt;br /&gt;quando passo mal me lembro de&lt;br /&gt;vê-la sorrir ainda bebé nos sonhos&lt;br /&gt;da cama e logo todo fico bem e logo&lt;br /&gt;tudo ricocheteia. agora com quase&lt;br /&gt;cinco anos é uma grande senhora&lt;br /&gt;na arte de desenhar; fá-lo com prazer,&lt;br /&gt;fá-lo com deleite, fá-lo com carinho&lt;br /&gt;e coração; e quando brinca a vida&lt;br /&gt;brinca também, e quando canta a&lt;br /&gt;vida canta também, e quando chora&lt;br /&gt;o mundo sufoca afogado&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #3 isaac começa a ser, e&lt;br /&gt;enquanto aparece deixa ver de que são&lt;br /&gt;feitas as crianças sem chegar ao tamanho&lt;br /&gt;de eva. eva é especial, isaac banal; eva é&lt;br /&gt;difícil como uma espada, isaac um míssil&lt;br /&gt;que se atira explodindo. e simone que gere&lt;br /&gt;situações? é magma que escorre constantemente,&lt;br /&gt;mercúrio que dilata e contrai, lisa, profunda&lt;br /&gt;e densa, com quem durmo as noites e com&lt;br /&gt;quem vivo os dias e com quem vou desaparecendo&lt;br /&gt;no mundo, o pilar do lar, o fundamento do&lt;br /&gt;firmamento entre paredes que me verticalizam&lt;br /&gt;cada vez mais&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ invocámos as criaturas e as&lt;br /&gt;criaturas surgiram, chamámos pelas criaturas&lt;br /&gt;e etc. emergiram; e de criaturas nos vimos&lt;br /&gt;inundados. assim se purificam os espaços, assim&lt;br /&gt;as almas reverdecem; mas o chão jamais se esgota&lt;br /&gt;geração após geração. até onde se dirige o sol,&lt;br /&gt;até quando arderá? e o universo é infinitamente&lt;br /&gt;brilhante, e etc. penumbroso, e do universo somos&lt;br /&gt;quase infinitamente. algo temos a dizer, algo nos&lt;br /&gt;pomos a fazer; e dura o que duramos, e perduramos&lt;br /&gt;enquanto perdura a crise da identidade que faseia&lt;br /&gt;como a lua nossas certezas como pedras com que&lt;br /&gt;erguemos construções de uma vida&lt;br /&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/129365409517387313-72344947720271240?l=edicoesgalo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://edicoesgalo.blogspot.com/feeds/72344947720271240/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=129365409517387313&amp;postID=72344947720271240' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/129365409517387313/posts/default/72344947720271240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/129365409517387313/posts/default/72344947720271240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://edicoesgalo.blogspot.com/2012/01/semana-de-paragrafos-ii.html' title='semana de parágrafos II'/><author><name>galo porno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16476534964653207702</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://3.bp.blogspot.com/-jaOrVAybQ9g/TsuGCNiBJDI/AAAAAAAAAeI/MYlrDSCxE_s/s220/g.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-129365409517387313.post-686865819988146108</id><published>2011-12-28T12:31:00.000-08:00</published><updated>2011-12-28T12:32:13.187-08:00</updated><title type='text'>semana de parágrafos I</title><content type='html'>.&lt;br /&gt;_______ #1 o que não percebem é o que mais&lt;br /&gt;admiram, o que percebem lhes é indiferente; mas&lt;br /&gt;não percebem nada. não entendem o mais banal e&lt;br /&gt;por isso o mais sagrado ritual cumprido com tamanho&lt;br /&gt;afã que se dilui no próprio dia, o mais simples e&lt;br /&gt;recorrente que constantemente aí está como se fosse&lt;br /&gt;para sempre. mas os pais morrem e com eles as famílias,&lt;br /&gt;os amigos desaparecem no vento, o conhecimento de&lt;br /&gt;falar e andar decai com a cabeça cozida pelos anos.&lt;br /&gt;nunca chegaram a perceber cada uma dessas coisas&lt;br /&gt;porque existiam e permaneciam; por isso sua atenção&lt;br /&gt;se virou para o que não percebiam e esqueciam-se de&lt;br /&gt;perceber o que pensavam que percebiam. o mistério&lt;br /&gt;era o que era a matemática, não a tabuada; o mistério&lt;br /&gt;era o que era a literatura, não a conversação; o mistério&lt;br /&gt;era o que era a pintura, não os desenhos dos filhos a&lt;br /&gt;que só Deus pode dar valor. e não somos um Deus?&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #2 envergonhamo-nos porque&lt;br /&gt;alguns se envergonharam e não admitiram&lt;br /&gt;essa vergonha que fazemos e somos o que&lt;br /&gt;fazemos e somos. muitos beneficiariam do&lt;br /&gt;isolamento, tornar-se-iam mais fortes e depois&lt;br /&gt;mais úteis e melhores; ninguém quer uma madeira&lt;br /&gt;capaz de um círculo, mas a tábua que nunca&lt;br /&gt;empena acaba sozinha na sua rectidão enquanto&lt;br /&gt;o resto desabou curvado pelo peso dos anos.&lt;br /&gt;admira o que não te admira, admira-te de não&lt;br /&gt;te admirar, porque é realmente admirável deixar&lt;br /&gt;escapar as coisas grandes em troca de uma vírgula&lt;br /&gt;ou um acento: os homens se agastam pelo título&lt;br /&gt;da propriedade desleixando o próprio solo&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ olha-os tão vaidosos, como desfrutam&lt;br /&gt;ao se mostrar. e isso nos faz pensar quão vaidosos&lt;br /&gt;também somos nós e quanta inveja habita em nós&lt;br /&gt;como ratos que vão tudo roendo em troco de&lt;br /&gt;caganitas ubíquas. não seremos melhores que isto,&lt;br /&gt;não valeremos mais? melhor então nada valer se&lt;br /&gt;o valor acarreta eternas comparações e o ser se&lt;br /&gt;torna incapaz de restar sossegado. também as&lt;br /&gt;árvores competem entre si, e quem não sobe&lt;br /&gt;acaba à sombra; também os animais competem&lt;br /&gt;entre si, e quem não come acaba à fome. tu não&lt;br /&gt;queres o seu valor, tu queres a sua atenção; mas&lt;br /&gt;nem com o coração à mostra na mão consegues&lt;br /&gt;um arrepio –isso é que é arrepiante, e a indiferença&lt;br /&gt;é uma assassina silenciosa e afiada como o vento&lt;br /&gt;seco e gelado de este&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ és o que tens, és o que fazes, és&lt;br /&gt;o que és capaz de fazer? és então apenas um&lt;br /&gt;meio para o que está dentro e para o que está&lt;br /&gt;fora e para o que ainda não existe; és portanto&lt;br /&gt;um nada que deixa as coisas entrar e obriga as&lt;br /&gt;coisas a sair. não és grande coisa porque se fosses&lt;br /&gt;grande nada caberia; não és pequena coisa porque&lt;br /&gt;se fosses pequena nada conseguirias. és o que os&lt;br /&gt;outros de ti fazem, és o que os outros de ti dizem,&lt;br /&gt;és o que pensas de ti; e se ninguém pensar e ninguém&lt;br /&gt;falar e nada fizeres deixas de existir. és então o olhar&lt;br /&gt;sobre a vida que nem é tua, és o olhar sobre a passagem&lt;br /&gt;que te abre os olhos e diante dos olhos escorre até os&lt;br /&gt;olhos se fecharem e as orelhas caírem e à boca arruinada&lt;br /&gt;apenas restar soltar os dentes um a um mantendo-os&lt;br /&gt;em difícil equilíbrio sobre maxilares ocos&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ que peça terei de fazer para te tirar&lt;br /&gt;do aborrecimento, pequeno rei, pequena rainha,&lt;br /&gt;que jóia terei de criar? e as palavras surgiram do&lt;br /&gt;aborrecimento porque quando um homem trabalha&lt;br /&gt;a terra não precisa de falar; e a escrita surgiu do&lt;br /&gt;aborrecimento porque quem canta escusa registar.&lt;br /&gt;e aprendia-se escutando, e aprendeu ouvindo a&lt;br /&gt;criança. se hoje falamos não foi graças ao estudo&lt;br /&gt;mas às orelhas, e os tímpanos são mais valiosos&lt;br /&gt;que a língua. não enchas então a cabeça de merda&lt;br /&gt;e deixa de mastigar os excrementos por que tanto&lt;br /&gt;anseias de estante em estante, de espectáculo em&lt;br /&gt;espectáculo. os olhos precisam do descanso do&lt;br /&gt;familiar, e ao coração apraz repousar no leito que&lt;br /&gt;conhece há muito respirando o aroma dos anos&lt;br /&gt;acumulados&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ só diferente quer ser quem igual&lt;br /&gt;é, e a criatura específica não precisa de se&lt;br /&gt;distinguir. e todos avançam, mas uns seguem&lt;br /&gt;mais à esquerda; e todos avançam, mas uns&lt;br /&gt;seguem mais à direita; e todos avançam, mas&lt;br /&gt;a maioria segue ao centro. e caem como uma&lt;br /&gt;avalanche, mais forte no meio, mais fraca nas&lt;br /&gt;extremidades. mas toda a forma tem o seu limite&lt;br /&gt;que a delineia, e quem aspira à matéria-prima&lt;br /&gt;perde-se nas abstracções de um intelecto&lt;br /&gt;envergonhado das suas raízes; mas todo&lt;br /&gt;o fruto leva o sabor da terra, e quem deseja&lt;br /&gt;apenas o sumo não consegue evitar o barro&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ indiferença gera indiferença e um balde de água fria arrefece o barroco&lt;br /&gt;aos poucos. assim arderam muitos bosques,&lt;br /&gt;assim se queimaram muitas mãos; e quando&lt;br /&gt;o inverno chega demora a penetrar o frio no&lt;br /&gt;coração. mas aos primeiros sinais primaveris&lt;br /&gt;a alma sente-se rejuvenescer e aqueles que&lt;br /&gt;se achavam vis encontram agora uma razão&lt;br /&gt;para serem mais abertos e receptivos aos&lt;br /&gt;insectos que fecundam flores&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ teria tudo dentro ficado, teria&lt;br /&gt;tudo sido resguardado apenas não conseguindo&lt;br /&gt;nós aceder? cada porta tem a sua chave e a&lt;br /&gt;primeira frase é quem abre as portas; mas a&lt;br /&gt;poesia é mais que felizes expressões e mesmo&lt;br /&gt;os monumentos não se mantêm por uma porta&lt;br /&gt;de pedra –permanece a muralha, pedra sob&lt;br /&gt;pedra o perímetro permanece, mas todo o&lt;br /&gt;conteúdo ardeu com o tempo. torna-se então&lt;br /&gt;conteúdo forma e os homens aprendem a viver&lt;br /&gt;dos ossos; prefere-se a côdea ao miolo e o caroço&lt;br /&gt;à polpa do fruto. essa é uma má alimentação;&lt;br /&gt;viciado o corpo definha e as mandíbulas perdem&lt;br /&gt;a força entre feridas e dentes partidos&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ tentei com o meu melhor mas o&lt;br /&gt;melhor fora escusado porque não cabia. por&lt;br /&gt;vezes o suficiente chega e entra enquanto o&lt;br /&gt;bom fica de fora, por vezes o mau consegue&lt;br /&gt;chegar onde o razoável definha. a maioria é&lt;br /&gt;a maioria e a maioria tem de ser igual; não te&lt;br /&gt;espante por isso que os homens sejam um só&lt;br /&gt;animal sempre idênticos no instinto como&lt;br /&gt;idênticos nos actos com que o consecutam.&lt;br /&gt;o espírito é uma flor que não serve arrancado&lt;br /&gt;num vaso; ele tem a sua estação e a sua natureza.&lt;br /&gt;ninguém semeou as vinhas mas pelo fim do&lt;br /&gt;inverno se almofadam com os malmequeres;&lt;br /&gt;ninguém semeou os campos mas na primavera&lt;br /&gt;se desbotam em perfumes, e os sentidos&lt;br /&gt;entorpecidos entram em êxtase&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ aprendemos pelo que&lt;br /&gt;lemos e ensinamos pelo que escrevemos;&lt;br /&gt;cuidado tem com o que fazes pois,&lt;br /&gt;cuidado e atenção porque quanto fizeres&lt;br /&gt;acabará em canção nos lábios de outro.&lt;br /&gt;aprendemos pelo que fazemos e ensinamos&lt;br /&gt;pelo que mostramos; cuidado tem com&lt;br /&gt;o que dizes pois, cuidado e atenção&lt;br /&gt;porque quanto disseres acabará em&lt;br /&gt;refrão nos lábios de outro coração&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #1 a viagem vai-se fazendo e tu nem sentes&lt;br /&gt;nada passar –nasceste em movimento e para ti sempre&lt;br /&gt;houve circulação de ar. mas por vezes viste algo abafar&lt;br /&gt;diante dos olhos e quando o tocaste sentiste frio com&lt;br /&gt;tremor: o caixão aberto de quem empalidecera, o cadáver&lt;br /&gt;aberto donde nenhum vapor se desprendia. mas a viagem&lt;br /&gt;continua e a paisagem força a desviar a atenção; passa&lt;br /&gt;tudo tão depressa que nem temos tempo de repetir a&lt;br /&gt;canção. muitas escutamos, muitas aprendemos, muitas&lt;br /&gt;ensinamos e mostramos, muitas inventamos, todas&lt;br /&gt;esquecemos; mas alguma que outra faz enrijecer os&lt;br /&gt;mamilos e vibrar as narinas, as canções das meninas&lt;br /&gt;e dos meninos, as delícias da infância –essas parecem&lt;br /&gt;resistir para sempre. assim passa o tempo à medida que&lt;br /&gt;se dá o engrossamento do espírito e o corpo decai com&lt;br /&gt;passividade crescente: «é engraçado», «pois sim», «hum&lt;br /&gt;hum» -farinha remoída para um último bolo&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #2 e como fora divertido cozinhar&lt;br /&gt;com os filhos na cozinha, como fora agradável&lt;br /&gt;mostrar-lhes e evitar que se magoassem. era a&lt;br /&gt;nós mesmos que mostrávamos então e era a nós&lt;br /&gt;próprios que educávamos –nossos filhos nosso&lt;br /&gt;futuro são, e o futuro é deles sempre na canção.&lt;br /&gt;diluem-se os sentidos mas a direcção domina;&lt;br /&gt;esta viagem segue em frente sem paragem através&lt;br /&gt;da miragem do pôr-do-sol: é a terra que gira mas&lt;br /&gt;ficamos para trás –poderíamos acompanhar as&lt;br /&gt;estrelas? começámos a contá-las conforme os&lt;br /&gt;sonhos difíceis de recortar&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #1 se te pusesse à frente um monte&lt;br /&gt;de pessoas esfomeadas e propusesse ao lado&lt;br /&gt;um mês de cultura que preferirias alimentar?&lt;br /&gt;«gordura é formosura». se te desse a escolher&lt;br /&gt;entre um ano de programação cultural ou um&lt;br /&gt;ano de alimentação integral qual preferirias tomar?&lt;br /&gt;«gordura etc.». mas os homens que bebem da teta&lt;br /&gt;gorda vendem a ideia de que a cultura é fundamental&lt;br /&gt;e que em tempos de fome e frio ter gordura é essencial;&lt;br /&gt;mas com estômago vazio os músculos atrofiam e o&lt;br /&gt;coração gela, os pulmões aspiram a ferozes intenções&lt;br /&gt;e o sangue pede por satisfação. o espírito sempre foi&lt;br /&gt;um estômago roto e quanto mais se lhe dá mais incha&lt;br /&gt;e menos se contenta&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;______ #2 enfia no cu teu dinheiro e programa&lt;br /&gt;à vontade pois já seis anos duram dourados os teus&lt;br /&gt;gastos e a tua fartura. para alimentar a vaidade de&lt;br /&gt;um homem é preciso ressecar o corpo de muitos,&lt;br /&gt;e só por um espectáculo se nutririam seiscentos&lt;br /&gt;e sessenta e seis seres humanos. assim não pode&lt;br /&gt;continuar, assim não continuará, assim acabará&lt;br /&gt;porque o tempo das artes é o tempo dos homens,&lt;br /&gt;é o tempo contínuo; mas o tempo da programação&lt;br /&gt;cultural é o templo dos ricos que nunca se esvazia&lt;br /&gt;porque constantemente alimentado pela fogueira&lt;br /&gt;do sofrimento de quem vê lhe quererem vender&lt;br /&gt;bilhetes em vez de oferecerem amor e alimento&lt;br /&gt;carnal&lt;br /&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/129365409517387313-686865819988146108?l=edicoesgalo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://edicoesgalo.blogspot.com/feeds/686865819988146108/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=129365409517387313&amp;postID=686865819988146108' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/129365409517387313/posts/default/686865819988146108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/129365409517387313/posts/default/686865819988146108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://edicoesgalo.blogspot.com/2011/12/semana-de-paragrafos-i.html' title='semana de parágrafos I'/><author><name>galo porno</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16476534964653207702</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='28' src='http://3.bp.blogspot.com/-jaOrVAybQ9g/TsuGCNiBJDI/AAAAAAAAAeI/MYlrDSCxE_s/s220/g.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
